A utilização de água subterrânea por meio de poços artesianos é uma prática amplamente difundida no Brasil, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Essa fonte de abastecimento é valorizada por sua disponibilidade contínua e, muitas vezes, pela percepção de maior pureza em comparação às águas superficiais. No entanto, uma das ocorrências mais frequentes nesse tipo de captação é a presença elevada de ferro (Fe) e manganês (Mn) dissolvidos na água.
Embora esses elementos não sejam considerados altamente tóxicos em baixas concentrações, sua presença acima dos limites recomendados compromete significativamente a qualidade estética da água, provocando coloração, sabor metálico, odor desagradável, manchas em superfícies e incrustações em tubulações e equipamentos.
Neste artigo, você entenderá por que ferro e manganês aparecem em poços artesianos, quais são os impactos práticos dessa contaminação, os limites definidos pela legislação brasileira, os métodos laboratoriais de análise e as principais alternativas de tratamento para resolver esse problema.
Por que ferro e manganês são comuns em poços artesianos?
A principal origem do ferro e do manganês em águas subterrâneas é natural (geogênica). Esses metais fazem parte da composição de diversas formações geológicas presentes nos aquíferos brasileiros, tanto sedimentares quanto cristalinos.
Minerais como:
- Hematita (Fe₂O₃)
- Magnetita (Fe₃O₄)
- Siderita (FeCO₃)
- Pirolusita (MnO₂)
sofrem processos de lixiviação quando entram em contato com a água subterrânea, liberando ferro e manganês na forma dissolvida.
Esse processo é intensificado em condições típicas de aquíferos profundos:
- Baixo teor de oxigênio dissolvido (ambiente redutor)
- pH levemente ácido
- Longo tempo de contato da água com a matriz rochosa
Além da origem natural, fontes antrópicas também podem contribuir:
- Infiltração de efluentes e resíduos
- Corrosão de tubulações metálicas
- Disposição inadequada de resíduos no solo
Formas químicas do ferro e do manganês na água
No ambiente subterrâneo, o ferro e o manganês se encontram, predominantemente, nas formas:
- Fe²⁺ (ferroso) — solúvel
- Mn²⁺ — solúvel
Essas formas não alteram a aparência da água enquanto permanecem em ambiente sem oxigênio.
O problema surge quando a água é bombeada para a superfície e entra em contato com o ar. O oxigênio promove a oxidação:
- Fe²⁺ → Fe³⁺ (precipitado avermelhado)
- Mn²⁺ → Mn⁴⁺ (precipitado escuro)
É nesse momento que aparecem:
- Água amarelada ou marrom
- Depósitos escuros em reservatórios
- Manchas em roupas e louças
- Turbidez e aspecto desagradável
Principais impactos na qualidade da água
Mesmo não representando risco toxicológico significativo nas concentrações usuais, os efeitos operacionais e estéticos são consideráveis:
Alterações sensoriais
- Sabor metálico
- Odor desagradável
- Coloração anormal
Problemas operacionais
- Incrustações em tubulações
- Entupimento de registros e chuveiros
- Redução da vida útil de bombas e equipamentos
Problemas microbiológicos indiretos
A presença de ferro favorece o crescimento de bactérias ferro-oxidantes, que formam biofilmes viscosos nas tubulações, agravando ainda mais os problemas de manutenção.
O que diz a legislação brasileira? (Portaria GM/MS nº 888/2021)
A Portaria de Potabilidade da Água para Consumo Humano estabelece limites para parâmetros que afetam a aceitabilidade da água.
| Parâmetro | Valor Máximo Permitido |
|---|---|
| Ferro | 0,3 mg/L |
| Manganês | 0,1 mg/L |
Esses limites não estão relacionados diretamente à toxicidade, mas à qualidade estética e operacional da água.
Acima desses valores, a água passa a ser considerada inadequada para consumo do ponto de vista da aceitabilidade.
Como o laboratório identifica ferro e manganês na água?
Laboratórios especializados utilizam metodologias padronizadas descritas no Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (APHA, AWWA, WEF).
As técnicas mais utilizadas são:
- Espectrofotometria UV-Vis (métodos colorimétricos)
- Espectrometria de Absorção Atômica (AAS)
- ICP-OES e ICP-MS (análises multielementares de alta precisão)
Esses métodos permitem identificar concentrações muito baixas, garantindo confiabilidade nos resultados.
Principais formas de tratamento para remover ferro e manganês
A escolha do tratamento depende da concentração encontrada e das características físico-químicas da água.
1. Aeração seguida de filtração
Promove a oxidação natural dos metais e posterior retenção em filtros.
2. Oxidação química
Uso de agentes como:
- Cloro
- Permanganato de potássio
- Ozônio
3. Filtração em meios catalíticos
Materiais como:
- Areia verde (greensand)
- Dióxido de manganês
4. Sistemas avançados
- Troca iônica
- Osmose reversa (casos específicos)
Como saber se o seu poço artesiano tem esse problema?
Os sinais mais comuns são:
- Água que sai limpa e fica amarelada após alguns minutos
- Manchas em roupas brancas
- Depósitos escuros em caixas d’água
- Sabor metálico perceptível
A única forma segura de confirmação é por análise laboratorial da água.
Importância do monitoramento periódico
Mesmo que o poço sempre tenha apresentado boa qualidade, alterações sazonais, rebaixamento do lençol freático ou mudanças nas condições geológicas podem alterar a concentração desses metais ao longo do tempo.
Por isso, recomenda-se análise periódica da água.
Para entender visualmente como esse processo ocorre no aquífero e no sistema de abastecimento, assista a este vídeo:
Considerações finais
A presença de ferro e manganês em poços artesianos é um fenômeno extremamente comum e, na maioria das vezes, associado às características naturais do aquífero. Apesar de não representar risco direto à saúde nas concentrações usuais, seus efeitos sobre a qualidade da água, a infraestrutura hidráulica e a aceitabilidade para consumo são significativos.
O diagnóstico correto por meio de análises laboratoriais confiáveis, aliado à escolha adequada do sistema de tratamento, é fundamental para garantir água limpa, segura e em conformidade com a legislação brasileira.
Referências técnicas
- APHA, AWWA, WEF. Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater. 23ª ed.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 888/2021.

